30/12/2021

Longas entrevistas encontraram seu paraíso nos podcasts; não se pode dizer o mesmo nas TVs

Programas de televisão se especializaram em gravar longas entrevistas e depois editar com os trechos mais bombásticos. O problema? A naturalidade foi deixada de lado e os programas ficaram cada vez mais frios. Já os podcasts, sem a pressão da grade de programação, funcionam cada vez melhor com a longa duração.


Leda Nagle em entrevista ao Inteligência Ltda, apresentado por Rogerio Vilela: três horas no ar!
Reprodução / Youtube



Sempre que algo vira moda, as comparações são iniciadas. É a velha guerra de gerações, que através de discursos de fãs apaixonados procura sepultar o que veio antes e redefinir o jogo. A nova onda dos podcasts colocou em xeque – para alguns – os programas de entrevistas da TV. Será mesmo o fim?


Pra começar, o que é podcast?

O formato de podcast não é algo novo, mas demorou a se popularizar. É aquela história de chegar cedo na festa. Aqui no Brasil questões como o custo e a velocidade da internet móvel ainda em 2G, por exemplo, atrasaram essa disseminação – mesmo com os aparelhos de 2006 possuindo a função, como o meu saudoso Samsung F250L. Os ouvintes mais antenados já consumiam o formato em seus computadores de mesa ou faziam o download.

Mas a revolução chegou, não apenas com a facilitação do acesso, mas também da produção. É possível começar com um simples celular. Claro que, com o tempo, a qualidade é aprimorada. Produtos com bom texto e sonorização conquistaram, de imediato, o ouvinte em séries contando crimes históricos – como o caso Evandro – ou curiosidades do cinema e da música.

Com a pandemia da Covid-19, popularizaram-se as transmissões ao vivo de entrevistas pelo Instagram. Mas seu limite de uma hora deixava muita gente ficava com o gostinho de quero mais. Astros e estrelas passaram a ficar acessíveis e, sem a censura das assessorias, abriram o coração para contarem tudo. Sucesso imediato. A divertida Maria Zilda conquistou muitos fãs com seus causos dos bastidores da TV.

Maria Zilda foi ao The Noite - Crédito Gabriel Cardoso / SBT


Formato que veio para ficar

Ao contrário do que aconteceu com o retorno do Drive In e de outras modas que foram rapidamente esquecidas com a reabertura, as lives de entrevista sobreviveram – até mais que as musicais. E o podcast no Youtube, com vídeo, colaborou com isso. Uma regra da plataforma para associados também influenciou: para qualificar um canal para monetização, é preciso ter muitas horas de exibição.

Os podcasts de entrevista têm, normalmente, dois apresentadores de uma área específica – como humor ou música – uma mesa e um monitor. Recentemente passei alguns dias ouvindo o Inteligência Limitada do Rogério Vilela, um dos melhores do ramo, conhecido por ir ao extremo com bom humor e humildade, levando o “papo de boteco” a mais de 4 horas de duração. É nítido e divertido ver como o papo pode ir da alta intensidade de um bar até o clima “deprê” do Habibs da Augusta às 5 da manhã (incluindo suas devidas reflexões filosóficas) e novamente recuperar o ritmo. Vilela é aquele amigo que todos querem ter para conversar. 

Essa conversa dele com a Leda Nagle é fantástica pois faz um paralelo entre a arte da entrevista desde a década de 1970 até os dias atuais através da experiência dos dois.


O podcast é um inimigo da TV? Não. A TV é sua própria inimiga.

A comparação com a televisão é imediata. Mas precisamos aprofundar a análise. Muitos entrevistadores de televisão se dariam muito bem em podcasts, pois fazem o assunto render em conversas de longa duração, com calma e aos poucos extraindo o melhor do entrevistado, mas o papo é completamente picotado na edição e costurado pelo cansativo recurso de inserts de palmas da plateia, risadas pré-gravadas ou – as nem sempre engraçadas – intervenções do humorista de plantão. O apresentador precisa saber conduzir e ser bem orientado pelo diretor ficando o mais próximo do ao vivo. Hoje é difícil ver um programa fluir como faziam o De Frente com Gabi ou Sem Censura com a própria Leda Nagle - um gravado e outro ao vivo, mas ambos bem ritmados e interessantes. O pior é que até os programas de auditório seguem nessa linha e isso é nítido e desestimulante.


Esse é um dos motivos do Conversa com Bial funcionar melhor remotamente. Mesmo editado ficou mais suave que no estúdio pois era evidente o quanto o programa gravava material a mais, o que provoca escolhas difíceis na ilha de edição. Foi assim no dia em que José Paulo de Andrade - em rara entrevista fora da Bandeirantes - foi ao programa junto com Otaviano Costa e pouco teve espaço de fala no ar. A impressão é que sua presença foi apenas para validar a estreia de Costa na Rádio Globo, o que não ficou legal. Com a grande experiência de Bial na entrevista, com certeza boas histórias foram coletadas, mas ficaram de fora. O mesmo aconteceu com o programa do Porchat – que inclusive demonstrou isso ao precisar dividir a entrevista de Jô Soares em duas partes para evitar o pecado de editá-la demais. O The Noite consegue, devido ao elenco grande e formato baseado no humor, não deixar isso tão evidente pois há dinamismo nas interações.

Procurei traçar essa comparação entre o modo dito moderno de entrevista e outro tradicional para propor essa reflexão a televisão: quem está nela precisa voltar a "fazer ao vivo", mesmo gravado. A vantagem da gravação na TV deve ser apenas para otimizar o uso de estúdios e agenda, jamais para cobrir essas lacunas na técnica de entrevista, pesquisa e direção. 


O entrevistado é mais feliz no podcast ou na TV?

Há quem diga que os entrevistados ficam mais felizes no podcast que na TV. Sabe o porquê? É que ele vê que nada foi cortado e que se algo for mal interpretado é sua responsabilidade. Já na televisão se não se respeita o tempo correto, inevitavelmente, algo ficará de fora e tudo o que é editado pode tomar uma conotação diferente do momento da gravação. É um risco grave e desnecessário.

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