A chegada da CNN ao Brasil provocou algumas mudanças em suas congêneres GloboNews e BandNews. A Record News, que passou por uma reformulação de conteúdo em 2013 e de forma em 2017 não promoveu alterações. Duas das principais mudanças trazidas pela norte americana foram os mosaicos com mais de seis pessoas e os debates. Já a que aconteceu indiretamente foi a queda dos programas “frios” da Globo News. Será que foi o melhor a se fazer?

Ter debates na programação não é nenhuma novidade. Se formos até os anos 1990, era comum vê-los na hora do almoço, como o Gazeta Meio-Dia e o Record em Notícias. No Sul, emissoras como a Pampa ainda o fazem. E em 2011 a RedeTV procurou lançar um programa do tipo, o Tema Quente, com o Kennedy Alencar na faixa das 18. Duas forças opostas da política discutiam, direto de Brasilia, temas importantes.
Mas o propósito deste texto é abordar a extinção dos programas que não são telejornais. Em 2001, o Brasil contava apenas com a GloboNews. A chegada do BandNews e seu modelo de telejornais ininterruptos foi uma alternativa bem-vinda. Entretanto, sofria um pouco com a repetição de notícias – afinal de contas, haja notícia para preencher 48 boletins de 30 minutos!

Em 2007, a Record News chegou com uma programação nos moldes da GloboNews, até mais robusta, com documentários da BBC, reportagens do 60 Minutes, programas de saúde, tecnologia (Link Brasil, que depois ganhou similar na GloboNews, o Navegador), Aldeia Global, Arquivo Record (releitura do Arquivo N), Zapping, dentre outros. Mas o modelo, infelizmente, não se pagou e a audiência não correspondeu. Curiosamente, ao mudar para um estilo BandNews, mas com boletins gravados ao invés de ao vivo e um telejornal principal, viu a audiência subir. Seria um alerta de que o telespectador procura telejornal 24 horas?
Confortável em sua liderança na paytv, a GloboNews continuou com sua grade variada até as eleições de 2018, quando começou a ensaiar a derrubada da faixa de programas das 23:00 para esticar o Jornal das Dez. Com a chegada da CNN e do coronavirus, a situação mudou de vez e a grade se resumiu a telejornais, ao Em Pauta e ao Estúdio I. A audiência melhorou, mas, fora da faixa das 23h, não dá pra cravar que seja fruto exclusivamente da mudança de programação. Na pandemia mais pessoas ficaram interessadas em acompanhar as notícias e o próprio sinal da emissora foi aberto no Globosat Play.

A CNN tem sido criticada por ir em direção contrária e encerrar a programação ao vivo às 23 horas. Resolveu atender parcialmente aos pedidos por mais conteúdo nacional. Cancelou a exibição do programa de Christiane Amanpour e criou o CNN Tonight (também gravado, mas mais quente, às 22:30 - tirando meia hora do telejornal ao vivo) e empurrou os documentários para as 23:30 em edição dupla. Louvável a atitude de mantê-los na programação diária e dentro do plantão aos fins de semana.
Entendemos que o diferencial é ter jornalismo quente a todo momento, mas é preciso dosar. Chega um momento que é nítido que não há mais sobre o que falar em alguma cobertura, é preciso um respiro. Além disso, o telespectador recebe aquilo tudo, mas não consegue processar. Ele precisa de um tempo para aprender sobre assuntos mais densos, já analisados e interpretados – coisa que o documentário faz bem. Até a BandNews, que lançou o conceito no Brasil tem mudado e ido em direção contrária, lançando horários para programas temáticos como Capital e Mercado, Capital Natural, Mapa Mundi, Aqui tem Vaga (empregos), BandNews Docs, Olée S/A, Totalmente Excelente e o Conexão The New York Times.

No caso da necessidade de manter o noticiário quente, pode-se lançar mão do recurso que a Record News utilizava antigamente: o crawl com informações e interromper quando necessário.
Sacrificar a qualidade do jornalismo em nome da quantidade pode acabar por desgastar o formato de canal de notícias que, antes de tudo, é televisão, o que exige variedade. Vale a pena derrubar um pouquinho a média de audiência em nome de um conteúdo mais completo, o que a longo prazo pode ser recompensador para quem faz e quem assiste.

Este comentário foi removido por um administrador do blog.
ResponderExcluir