25/09/2017

Real: O plano por trás da história

Quando soube do lançamento deste filme, logo me veio o pensamento: "Nossa, já estão fazendo filmes sobre a política nos anos 1990!". A reação é devida ao fato de que as figuras que estavam presentes nos acontecimentos daquela década continuam na ativa. A primeira questão é saber se as representações ficariam fiéis.

Itamar Franco mostra as notas da moeda que salvou a economia brasileira


Não consegui assistí-lo no cinema, mas neste final de semana o aluguei através do Google Filmes. De imediato, apenas pelo trailer, já peguei várias referências de outros filmes e também consegui identificar o bom trabalho do Lucas Gonzaga, o mesmo montador (termo equivalente a editor no cinema) de Dois Coelhos (2012). 

Essas referências colocam os economistas da equipe do então ministro Fernando Henrique Cardoso como superheróis prontos para enfrentar o dragão da inflação. Bem, é essa a imagem que sempre tivemos, mas vê-la em um filme soou meio forçado demais e pode abrir discussão, em tempos politicos quentes como os de agora, sobre um suposto apoio a um grupo político que ainda está em destaque no país. 



O filme mostra a história pela ótica do então diretor de assuntos institucionais do Banco Central Gustavo Franco. De personalidade forte, ele trabalha como professor e costuma entrar em conflito com seus alunos, considerados por ele como "comunistas". A visão política e econômica de Gustavo gera acaloradas discussões até mesmo com um amigo, como é possível ver numa das primeiras cenas do filme. 

Devido a sua capacidade de conhecer os números e traçar estratégias, é convidado pelo economista Pedro Malan para fazer parte da equipe do recém nomeado Ministro da Fazenda Fernando Henrique. Itamar Franco, presidente da República empossado após o impeachment de Fernando Collor de Mello, decidira que era hora de enfrentar os sérios problemas do país de forma responsável e o primeiro desafio era justamente a inflação galopante que corroia os salários. 

Figura icônica da política brasileira, o baiano Itamar, que tinha em Minas Gerais seu domicílio eleitoral (mas que na verdade nasceu a bordo de um navio em águas brasileiras), ficou marcado pelo seu característico topete e gênio considerado difícil. Interpretado pelo excelente Benvindo Siqueira (eternamente lembrado como o Zébedeu de Mandacaru, novela da Manchete), o personagem se tornou um pouco mais carregado e apenas sua faceta nervosa e até um pouco descontrolada ficou em evidência -- deixando de lado o jeito simples e educado do interior que ele sempre demonstrou em entrevistas. 



O trabalho de caracterização dos personagens merece destaques positivos e outros nem tanto. O melhor representado foi justamente Gustavo Franco, que foi interpretado por Emilio Orciollo Neto, e logo em seguida, o próprio Itamar -- com algumas ressalvas na questão da voz. Falando em voz, o papel de José Serra foi desempenhado por Arthur Kohl, que fez um trabalho extraordinário. Outros que cumpriram bem o papel embora não ficassem tao próximos foram Pedro Malan (interpretado por Tato Gabus Mendes) e Persio Arida (Guilherme Winter). Infelizmente, no caso de Fernando Henrique, a caracterização e o tom de voz de Norival Rizzo ficou aquém do original, causando certa estranheza.



Esse risco é natural. A história está aí para ser contada -- haja visto que até mesmo a Lava Jato, em pleno funcionamento, já foi para as telas. A diferença é que como o filme se propôs a seguir a linha com nomes reais, diferentemente de outros que simulam um mundo a parte, ele abre espaço para essa crítica mais intensa.



Considero o ritmo ditado pelo diretor Rodrigo Bittencourt bom. Seu roteiro é acessível ao público, embora um ou outro termo do economês não consiga ser compreendido por quem não é da área (para entender o que foi o plano, por exemplo, você não vai conseguir apenas com o filme). É dinâmico e sabe equilibrar bem os momentos de tensão sem se arrastar ou ficar incompreensível. E o interessante é que é um dos poucos filmes do gênero que possa ser assistido praticamente por qualquer idade, já que não tem imagens de sexo ou violência - dá para a família assistir junto e quem viveu aquela época consegue, sem constrangimento, explicar como tudo aconteceu.



A trilha sonora é envolvente e muito legal. "Real" e "Polícia Federal: A Lei é Para Todos" mostram uma nova leva de filmes surgindo aí: os filmes políticos e sobre a história recente do Brasil. A verdade é que após uma década com uma forte produção de filmes de comédia e violência nos morros, o cinema nacional começa a abrir seu leque para o drama (no caso de Bingo) e outros gêneros. Isso é muito bom e vai fazer com que a produção audiovisual alcance mais pessoas e mostre que o nosso país é muito mais que apenas tiroteio e comédias de apartamento.

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