08/09/2017

O Marajá: a novela sobre o Brasil que nunca será vista

Conforme publiquei há alguns anos, em 1998 a Rede Manchete produziu sua última telenovela, Brida, que teve apenas trinta capítulos e foi encerrada abruptamente. Ela entrou para a história por mostrar o desespero do fim da emissora que foi referência de bom gosto nos anos 1980 e 1990.

Hoje escrevo sobre um fato que também entrou para a história da televisão brasileira e aconteceu anos antes. Em 1992, o Brasil viu a queda do seu primeiro presidente eleito de forma direta após o regime militar (1964-1985), Fernando Collor de Mello, do PRN. Ao mesmo tempo, no eixo Rio-São Paulo, uma venda movimentou o mercado de televisão: a TV Manchete após o sucesso da trinca Kananga do Japão, Pantanal e A História de Ana Raio e Zé Trovão se afundou em dívidas ao produzir uma novela em meio a floresta amazônica chamada Amazônia (dando médias de 1 a 2 pontos, pior até mesmo que Brida). A solução foi a venda para o grupo IBF, o qual pertencia ao empresário Hamilton Lucas de Oliveira e prestava serviços para o Governo Fleury na emissão das raspadinhas da Loteria Estadual e inclusive patrocinava o São Paulo Futebol Clube. Para completar, ainda havia indícios da ligação do grupo ao presidente Fernando Collor.

É importante explicar o contexto para entender o que aconteceu a seguir. A venda ocorreu em meados de 1992 e as produções passaram para São Paulo. Nesse meio tempo, os constantes cortes de funcionários e renegociação de salários em nome de uma reestruturação fez com que grandes nomes deixassem a emissora rumo ao SBT, como aconteceu com Angélica e os âncoras do Jornal da Manchete Eliakim Araújo e Leila Cordeiro. Jornais da época noticiaram que a IBF atrasara as prestações do negócio e como a transferência das ações era de forma progressiva, o grupo Bloch conseguiu, nesse período, recuperar as outras empresas, como a revista Manchete, e correu a tempo de contestar o negócio na justiça. A defesa do grupo IBF afirmou em sua defesa que fez os pagamentos e que apenas suspendeu uma das últimas parcelas ao descobrir que o montante da dívida superava -- e muito -- o que teria sido informado pela família Bloch na ocasião. A justiça, em abril de 1993, decidiu pelo ganho de causa ao grupo Bloch e Adolpho, o líder da família, reassumiu sua emissora de televisão lançada 10 anos antes.




Nesta época, o presidente Fernando Collor já havia sido retirado do cargo, o processo de impeachment votado e Itamar Franco, seu vice, empossado. Há relatos que dão conta que ainda em 1990, ao visitar Collor para pedir ajuda, Adolpho dissera: "Presidente, preciso de ajuda. Estou caindo". Fernando teria respondido: "Enquanto o senhor está caindo, eu estou subindo. Passar bem". A ironia do destino foi que o vice que virou presidente, Itamar, foi quem ajudou Adolpho a recuperar a emissora na luta jurídica com Hamilton Lucas.

Bloch na época da recuperação da emissora


No impeto de voltar a ser forte, a Rede Manchete na figura de seu dono resolveu se vingar do Caçador de Marajás. Sem muito dinheiro para uma superprodução, utilizou seu edifício-sede no Rio de Janeiro projetado por Niemeyer, e que portanto se parece muito com os de Brasília, para recriar os palácios da Capital Federal. Calçada juridicamente, contratou autores e encomendou uma novela sobre um presidente de um país fictício que desejava ficar entre 1990 e 2020 no poder. O ator escolhido para representar "Elle" foi Helcio Magalhães, o sósia do presidente que ficou nacionalmente conhecido durante os protestos de 1992. Com linguagem de documentário e jornalismo mesclado com novela, foi produzida "O Marajá".



A novela contava com um grande elenco e era filmada com apenas uma câmera, segundo o relato de quem viu a obra. Sim, foram poucas pessoas que tiveram acesso ao material. No dia do lançamento, a Rede Manchete foi surpreendida por uma liminar expedida a favor da defesa do político, que afirmara que danos irreparáveis a imagem da pessoa e do político poderiam acontecer. O personagem "Elle", além de ter planos políticos suspeitos era posto em contato com o uso de drogas e rituais de magia negra. A decisão da justiça caiu como uma bomba em meio a festa de lançamento. A equipe de advogados da emissora tentou até o último minuto reverter a situação, tanto que a estreia seria as 21:30 e o Jornal da Manchete foi esticado até as 21:50 sem sucesso. Relatos dão conta que Adolpho Bloch, já com mais de 80 anos não suportou a emoção do momento e acabou passando mal.

A obra ficou suspensa e recursos foram abertos. Nesse meio tempo, José Loureiro, autor que já havia trabalhado em Corpo Santo, no ano de 1987, preparou a toque de caixa e com os mesmos atores e estilo a novela Guerra sem Fim, que retratou a vida nos morros violentos do Rio de Janeiro. Os meses passaram e em 1994 finalmente a emissora conseguiu autorização para exibir O Marajá, mas surpreendendo a todos Adolpho Bloch proibiu a veiculação por achar que Collor ainda continuara forte e que poderia prejudicar a rede de televisão. Desde então, as fitas nunca mais foram vistas.



Já se escreveu de tudo. Alguns textos de ex-funcionários já disseram que as fitas foram jogadas de um avião no mar. Uma matéria da Folha de S. Paulo diz que um entrevistado afirmou que Adolpho levara todas para sua casa e que elas ficaram em poder da família. Não se sabe o que ocorreu ao certo. Ainda nesta matéria da Folha, a qual você pode ler clicando aqui, há a informação de que uma cópia em VHS foi obtida pela reportagem e o que se viu foi uma obra arrastada e bem artesanal. Os textos da novela, obtidos na mesma época, dão conta de que embora se passasse no centro do governo, a partir de certo momento a trama ficava mais em torno da vida da jornalista interpretada pela atriz Julia Lemmertz e seu namorado interpretado por Alexandre Borges, que logo viraria seu marido na vida real -- os dois se separaram após duas décadas.



Um dos poucos trechos pode ser encontrado no DVD que acompanha o livro "Nossas Câmeras são seus Olhos", do então diretor geral da emissora Fernando Barbosa Lima. Há a abertura e um trechinho, o qual você pode assistir abaixo. Mesmo que dissesem que não se tratava de Collor era evidente que tudo foi criado em cima da imagem do ex-presidente.




Com qualidade sofrível, há ainda a chamada gravada no dia do lançamento da novela na qual é possível comprovar a semelhança entre os personagens e os nomes da vida real.




Uma verdadeira pena que jamais teremos acesso a esse material. Entretanto, mais uma vez ficamos sabendo que a Rede Manchete revolucionou ao incentivar a produção de conteúdos de teledramaturgia e jornalismo na televisão aberta. Um exemplo que perdura até hoje.

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