09/09/2024

A contribuição do Show do Milhão ao mercado de formatos de televisão

Anunciado pelo SBT em entrevistas, o acordo extrajudicial com a Sony Entertainment Television é um final feliz para um dos melhores programas já produzidos no Brasil. Relançado ontem (08), o programa passou a ser um quadro do Programa Silvio Santos com Patrícia Abravanel.



Digo que é um final feliz pois a internacionalização de formatos de televisão, que ganhou força no final dos anos 1990, ao mesmo tempo em que promoveu um salto de qualidade técnica nos programas, fez com que eles ficassem cada vez menos naturais e distantes do público. 


Isso ocorreu por dois motivos: 


1) O padrão de nivelamento passou a ser os Estados Unidos, que costumam produzir programas interessantes, mas em formato extremamente roteirizado para seguir uma linha industrial semelhante ao cinema.  


Qualquer passo fora do roteiro compromete financeiramente o projeto, desde o preço do aluguel de horário, estúdio e pagamento de equipe. Lá, os programas são produtos independentes e as emissoras compram prontos de terceiros para exibição.


2) Há pouquíssima liberdade para adaptação dos formatos para a linguagem local. Em nome da originalidade do projeto e controle sobre a franquia a nível mundial, os detentores dos direitos exigem que o programa siga a “bíblia”, um grande livro onde toda a mecânica é apresentada. 


O processo é tão cuidadoso que quando se compra um programa, geralmente é preciso contratar um consultor estrangeiro indicado pela distribuidora para acompanhar a implantação do projeto.


Isso não ocorre por pura vaidade das distribuidoras. Na verdade, trata-se de segurança jurídica. Por exemplo, no Brasil, ideia não tem dono, mas formato sim.


Exemplo: você pode ter a ideia de criar um painel com janelinhas ocultas que, quando reveladas, mostram fotos de pessoas. Um convidado pode, portanto, dar a opinião sobre aquela personalidade. Ok, é uma ideia que muitos outros também tiveram. Mas, nem por isso, você pode explorar de qualquer jeito.


Será preciso “formatar” (daí o termo formato), definindo regras, modelo de apresentação, cenário etc e registrar nos órgãos competentes. Caso contrário, você poderá ser processado por outro criador que aponte semelhança entre o seu produto e o dele.


Voltando ao Show do Milhão, a longa batalha judicial girou em torno da semelhança entre ele (lançado como Jogo do Milhão em 1999) e o Who Wants to be a Millionaire (Quem quer ser um milionário? - Hoje oficialmente licenciado para a Globo). Não cabe muito entrar em detalhes quanto as nítidas semelhanças, mas o que quero apontar é que a disputa acabou sendo benéfica a televisão brasileira e ao próprio mercado de formatos. 


Silvio Santos teve a liberdade única de ser o artista dono de sua própria emissora e só chegou a isso por conhecer a fundo seu público. Unindo esse fato ao seu talento como apresentador e sua paixão pela televisão internacional, soube como ninguém a adaptar as regras, a apresentação, a divulgação e até mesmo a comercialização dos produtos. 


Quando lembramos de outro exemplo, a Casa dos Artistas, pouco se fala de que o Big Brother originalmente era apenas com anônimos. Mas o trabalho feito no Brasil foi tão marcante que experiências com celebridades foram replicadas pelo mundo e definitivamente incluídas no formato, como se vê atualmente na Globo. 


A lição que fica é que sim, às vezes é necessário forçar um pouco as mudanças, pois cada país é único e tentar aplicar a mesma fórmula mundialmente pode jogar fora uma excelente e rentável ideia. Apesar do custo judicial e do desgaste, o caminho do consenso em uma adaptação é sempre o melhor. 

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