08/04/2021

A clareza da comunicação de Sergio Vieira de Mello que tanto faz falta ao Brasil

O Brasil, durante muitas décadas, teve orgulho de carregar uma excelente imagem no exterior. Infelizmente, de poucos anos para cá, este prestígio foi diminuindo devido a acenos da nossa diplomacia a devaneios que há muito tempo estavam superados. 

No início do século XXI, um brasileiro chegou ao ápice de sua carreira na ONU (Organização das Nações Unidas, cuja primeira assembleia geral também foi presidida por outro brasileiro, Osvaldo Aranha, em 1947): Sergio Vieira de Mello. 




Sergio alcançou o cargo de Alto Comissário para Direitos Humanos em 2002 após seu brilhante desempenho em meio a questões como a independência do Timor Leste pouco tempo antes, além de outros conflitos. Infelizmente, em 2003, Sergio foi alvo de um atentado em Bagdá. Ele era um dos nomes mais cotados por Kofi Annan, então secretário-geral da ONU para sua sucessão.

Bom, não é bem sobre diplomacia que desejo falar hoje, mas de exemplo de bom comunicador. Não sei vocês, mas eu tenho uma impressão de que o Brasil carece de bons comunicadores. Caimos num terrível limbo onde fórmulas para o sucesso são vendidas em todas as esquinas ou feeds. E aí já viu... Todo mundo fazendo os mesmos gestos com as mãos, pernas alinhadas igualmente... Todos robôzinhos -- algo que sempre se condenou, por exemplo, no telejornalismo.

Em suas entrevistas, Sergio demonstrava naturalidade, conhecimento e confiança sobre o que estava falando. Ao mesmo tempo, transitava entre as emoções de forma sincera - em expressões faciais e na fala. Há um material riquíssimo disponibilizado pelo SBT no Youtube: uma entrevista dele a Gabi em 2002. Reparem como ele é natural com ela, até mesmo ao se espantar com uma pergunta estranha, quando ela o questiona se direitos humanos também trata de racismo. 



Atualmente falta "alguma coisa" em nossos oradores. Não sei se o espírito de vendedor de produtos em geral tomou conta. Explico: sabe quando o vendedor não é especializado e vende uma geladeira ou um computador em questão de minutos? Ele não tem culpa, já que a loja não é de nicho, mas passa a impressão de superficialidade. A mesma coisa é quando vemos discursos nada naturais e carregados de frase de efeito. Algo ali não conquista - a não ser aqueles já educados a achar que aquilo é brilhante.

Comunicação precisa tocar o interlocutor. Emocionar, indignar, fazer rir e chorar, mas sobretudo não deixar a pessoa sair indiferente. Enquanto nossa educação - até porque acho que isso começa na escola - não mudar... Vamos ter que recorrer a inúmeras figuras que por "falar bem" viram figurinhas repetidas. Ah, tem mais uma coisa: o discurso não tem que ganhar por ganhar, como vemos em gincanas travestidas de debates por aí. Tem que ir além. Tem que ter consistência e ser entendido por todos.


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